Apresenta-se como “ex-deprimida” e “ansiosa ocasional”. Consultora e ativista de saúde, enfrentou a doença mental de frente, tornou-a na sua causa e hoje faz do tema o seu propósito.  E acredita que o investimento empresarial em saúde mental é altamente reprodutivo.

Vive-se a Era da Saúde Mental no local de trabalho. Os trabalhadores precisam e esperam locais de trabalho sustentáveis ​​e mentalmente saudáveis. Às empresas não basta fornecer aplicações ou usar chavões como “bem-estar”.

Como estão as empresas a cuidar dos seus trabalhadores? E como está a ser cuidada a saúde mental dos líderes? O que falta fazer?

Marta Rebelo vai marcar presença no debate «Cuidar da Saúde Mental: um dever e um investimento», a acontecer no próximo dia 22 de fevereiro, no âmbito de mais uma edição da Leading People – International HR Conference, em Cascais. Da sua participação pode-se contar com uma conversa livre de estigmas e tabus, numa abordagem de “murro no estômago-informação-solução”, e, conforme diz, nunca perder qualquer momento ou tempo de antena para a pôr em marcha.

Conheça um pouco melhor o perfil de Marta Rebelo a partir desta breve conversa com a Líder.

Segundo a Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho, em 2022, mais de 30% dos trabalhadores portugueses afirmaram sentir stress, depressão ou ansiedade, em resposta, ou exacerbados, pelo trabalho. Por outro lado, é já um dado adquirido que investir na saúde mental das pessoas traz retorno para as organizações, a todos os níveis. Quem não está a fazer o que é fundamental?

Quase ninguém está a fazer o fundamental, alguns estão a fazer o básico – e os números são muito piores que esses 30%. Portugal é o país europeu com maior risco de burnout ocupacional, somos os piores no ranking da depressão, segundos piores relativamente à ansiedade, pelo que 30% é uma estimativa por baixo. Para o custo humano deste cenário não temos cálculos, mas as perdas de produtividade para as empresas são 5.3 mil milhões de euros, em 2022 – sendo que cresceram 2.1 M€ de 2020 para 2022. Estes números são da Ordem dos Psicólogos, mais credíveis é impossível. Voltando à ação, ao fundamental e aos omissos: 1) do orçamento do SNS, apenas 2% são destinados à saúde mental; 2) 75% dos trabalhadores diz existir estigma no seu local de trabalho; 3) apenas um terço das empresas portuguesas têm alguma espécie de medidas de wellbeing. Estamos todos a reagir, muitas vezes desestruturadamente, sem prevenção ou reintegração.

A Marta disse: «os bons líderes têm de psicanalisar a sua liderança» (revista Líder nº 23). Como tratar da saúde mental dos líderes para que depois tratem da das suas equipas?

Digo muitas vezes que, por maior e melhor que seja a nossa rede de apoio, a doença mental é uma guerra de um só: nós contra nós. A autoconsciência é a pedra de toque desta conversa. Os líderes são pessoas, com muitas pessoas sob a sua responsabilidade. Parte dessa responsabilidade, para com as pessoas e a organização, é cuidarem de si, saberem parar, saberem pausar. Temos de operar um mindshift: a vulnerabilidade é inspiracional e não uma fraqueza. A empatia é um must have, não apenas nice to have.

A curiosidade foi uma das coisas que a fez ultrapassar a sua história de doença mental, entre depressão e ansiedade. Normalizar a doença e falar sobre o assunto, definitivamente ajuda?

Dois mil milhões no mundo, (bem) mais de três milhões em Portugal – se a doença mental não é o “normal”, o que será? Uma parte dramática e insuportável da doença mental é o auto-estigma e o estigma: impacta na duração e instalação da doença, porque não se procura ajuda adequada e atempadamente; impacta na intensidade da doença – é uma camada suplementar e diária de esforço, e essa energia dispendida a dissimular que estamos doentes é esgotante, prolonga e aumenta a doença. Não tenhamos ilusões: de 2020 para cá as palavras “saúde mental” passaram a ser ditas em voz alta, em público e nos media – mas o estigma continua todo por cá. Todo. Um estudo muito recente do Instituto de Saúde Pública da Universidade Porto conclui que os universitários com depressão e ansiedade não procuram ajuda por causa do estigma – transponha-se para o mundo do trabalho.

Que ferramentas se tornam essenciais para combater uma iliteracia generalizada sobre saúde mental em Portugal?

A vários níveis, e com empenho de todos. Temos de ensinar gestão emocional às crianças pequeninas, na escola. Temos de destigmatizar em família, criando um ambiente doméstico onde ninguém sinta que tem de esconder preocupações e sintomas. Temos de ensinar médicos e psicólogos a comunicar, informar com empatia. Temos de exigir dos nossos representantes medidas e budget efetivos para a saúde mental. Temos de criar ambientes de trabalho estigma-free, colocando ao dispor dos colaboradores informação e ferramentas preventivas, recursos de reação, e saber reintegrar.

 

O que podemos esperar da sua participação no evento Leading People?

Um dedo “escarafunchante” na ferida aberta. Infelizmente, a receita para motivar a ação dos players começa no susto – porque o cenário é muitíssimo assustador. Mas esperem caminhos e soluções. Nunca faço parte do problema sem pensar a sua solução.

Leading People – International HR Conference 

«Handle with care -The Power of Fragility to Lead the New World» é o tema do evento que este ano conta com a presença de destacadas figuras nacionais e internacionais para abordar a Saúde Mental, Vulnerabilidade, Compaixão, Resiliência, entre outros temas.

Nas organizações, nas empresas, nas cidades, nos grupos de amigos, na família, cuidar é reconhecer que há formas de poder que resultam da fragilidade com que estamos no Mundo. Liderar é encontrar a medida certa para transformar fragilidade e vulnerabilidade, numa verdadeira força motriz.

 

Mais informações disponíveis no site: https://www.leadingpeople.leadershipsummitportugal.com/

Bilhetes disponíveis na loja LÍDER: https://loja.temacentral.pt/collections/bilhetes/products/leading-people-international-hr-conference

Por: Rita Rugeroni Saldanha

De: https://lidermagazine.sapo.pt