Dormir menos de sete horas ou ter sono irregular associa-se a maior risco de doença cardiovascular, metabólica e declínio cognitivo. A ciência já falou. Agora, Portugal discute o tema. Durante anos, dormir mal foi tratado como um efeito colateral da vida moderna. Trabalha-se mais, responde-se mais tarde, compensa-se ao fim de semana. O corpo, supostamente, […]

Dormir menos de sete horas ou ter sono irregular associa-se a maior risco de doença cardiovascular, metabólica e declínio cognitivo. A ciência já falou. Agora, Portugal discute o tema.

Durante anos, dormir mal foi tratado como um efeito colateral da vida moderna. Trabalha-se mais, responde-se mais tarde, compensa-se ao fim de semana. O corpo, supostamente, aguenta. A ciência começou a desmontar essa narrativa. Meta-análises internacionais associam curta duração do sono a maior risco de mortalidade por todas as causas.

Estudos prospetivos ligam privação crónica de sono a hipertensão, doença cardiovascular, resistência à insulina e aumento de inflamação sistémica. No campo neurológico, investigações recentes mostram que a perda de sono profundo está associada a maior risco de declínio cognitivo.

Não é apenas uma questão de horas. É também de regularidade. Padrões de sono irregulares têm sido associados a risco acrescido de eventos cardiovasculares, mesmo quando a duração média parece aceitável. Dormir mal não é apenas acordar cansado. É alterar o equilíbrio biológico que sustenta a longevidade.

O que está em causa não é conforto. É fisiologia. Durante o sono profundo, o corpo regula processos inflamatórios, consolida memória, equilibra hormonas, repara tecido muscular e reorganiza circuitos neuronais. É um período ativo de manutenção.

É neste contexto que surge a conferência “Melhor sono para maior longevidade”, promovida pela TheUtmostSleep® – marca que representa em Portugal as camas Hästens e Harrison Spinks – e que terá lugar no dia 25 de Março, no Maat Central, o antigo Museu de Eletricidade, em Lisboa.

A premissa é simples e exigente: se queremos viver mais anos com qualidade, o sono tem de deixar de ser um tema periférico. Na discussão, participam três médicos com abordagens complementares.

Joana Costa, especialista em Medicina Geral e Familiar e Longevidade e presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina e Ciência da Longevidade, tem defendido que envelhecer com qualidade exige estratégia. A idade é o maior fator de risco para doença crónica, mas muitos determinantes são modificáveis. O sono é um deles: mensurável, ajustável, frequentemente negligenciado.

Carolina Costa, pediatra com foco em longevidade, desloca a conversa para o início da vida. Ritmos circadianos bem estabelecidos, padrões de sono consistentes e ambientes regulados influenciam desenvolvimento neurológico, imunidade e metabolismo. A saúde futura começa cedo. Muito cedo.

Filipe Oliveira, ortopedista e cirurgião da anca, acrescenta a dimensão funcional. Viver mais não basta. É necessário preservar mobilidade e autonomia. A regeneração músculo-esquelética ocorre, em grande parte, durante o sono profundo. Inflamação persistente, dor crónica e recuperação deficiente encontram na privação de sono um fator agravante.

O debate sobre longevidade deixou de ser apenas demográfico. Tornou-se clínico. Numa era em que a produtividade é quase um valor moral, dormir pode parecer um luxo. Mas a evidência acumulada sugere o contrário: é infraestrutura biológica. Sem ela, o edifício começa a ceder – no coração, no metabolismo, na cognição, na mobilidade.

A conferência, evento fechado e por convite, propõe uma leitura transversal, da célula à articulação, do recém-nascido ao adulto ativo. E obriga a uma pergunta incómoda: estamos a dormir para recuperar ou apenas a sobreviver? Talvez a verdadeira estratégia de longevidade comece onde o dia termina.

De: https://sapo.pt