O controlo do colesterol é uma maratona, não um sprint.

Como Médico de Família, uma das perguntas mais frequentes no meu consultório é: “Doutor, os meus níveis de colesterol estão altos. E agora?”. A preocupação é justificada, mas é crucial transformá-la em ação. A dislipidemia – níveis elevados de colesterol – é verdadeiramente um “inimigo silencioso”. Não dói, não tosse, não dá sinal. O seu perigo reside precisamente nisso: vai-se acumulando nas paredes das artérias, formando placas que, a prazo, podem levar a enfartes do miocárdio ou acidentes vasculares cerebrais (AVCs).

Desmistificar é o Primeiro Passo
Um dos maiores equívocos, é a crença de que o colesterol alto é um problema exclusivo de pessoas mais velhas ou com excesso de peso. É um erro perigoso. Jovens aparentemente saudáveis, magros e ativos podem ter colesterol elevado devido a uma forte predisposição genética (hipercolesterolemia familiar). Por outro lado, uma pessoa idosa pode ter níveis perfeitamente normais. Isto significa que todos, independentemente da idade ou do índice de massa corporal, devem fazer uma análise sanguínea regularmente. O silêncio do colesterol só é quebrado com exames.

A Medicação é um Aliado, mas não é Tudo
Quando os números são muito elevados, a medicação (como as estatinas) é fundamental e salva vidas. No entanto, o papel mais transformador do Médico de Família, é mostrar aos seus pacientes que eles são os verdadeiros protagonistas da sua saúde cardiovascular. A mudança não reside em grandes sacrifícios, mas na consistência de pequenos gestos diários.

Pequenos Gestos, Grandes Vitórias

– Alimentação: Trocar, não Proibir. Ninguém gosta de dietas restritivas. O segredo é a substituição inteligente:

  • Troque as gorduras saturadas (carne vermelha gordurosa, enchidos, manteiga) por gorduras insaturadas (azeite, abacate, frutos secos).
  • Troque o pão branco e os cereais açucarados por versões integrais, ricas em fibra.
  • Introduza o peixe gordo (salmão, sardinha, atum) pelo menos duas vezes por semana.
  • Aposte nos legumes e na fruta, preenchendo metade do seu prato.

– Exercício Físico: Mexa-se, não se canse. Não é preciso tornar-se atleta de alta competição. 30 minutos de caminhada vigorosa, quase todos os dias, é um dos melhores remédios para elevar o HDL (colesterol “bom”) e ajudar a controlar o LDL (“mau”). Use as escadas, estacione o carro mais longe, saia para um passeio após o jantar. Tudo conta, e não esquecer o treino de força pelo menos duas vezes por semana.

– Sono e Gestão de Stress: Descanse para se proteger. Dormir mal e viver em stress constante eleva os níveis de cortisol, o que indiretamente pode prejudicar o perfil lipídico. Um sono reparador e momentos de pausa (ler, meditar, ouvir música) são gestos de carinho para com as suas artérias.

O controlo do colesterol é uma maratona, não um sprint. É a soma das escolhas que fazemos no dia a dia. Como seu médico, o meu objetivo é ser o seu “treinador”, ajudando-o a incorporar estes pequenos gestos na sua rotina. Marque as suas análises, conheça os seus valores de colesterol e, principalmente, acredite que tem o poder de os mudar. A sua saúde cardiovascular agradece!

Por: Rui Garrido, Médico Especialista de Medicina Geral e Familiar da TrueClinic
Cédula Profissional Ordem dos Médicos – nº 46387

De: https://sapo.pt/artigo